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A Ideologia - uma leitura da atual disputa política no Brasil

De onde vêm os termos Direita e Esquerda, da Assembleia de 1789 até hoje, e por que o discurso político atual no Brasil se afasta deles.

Wendel Santana5 min de leitura

Nossa primeira tarefa é entender como e por que essas denominações ideológico-políticas surgiram.

No Brasil, alguns podem até acreditar que a ideologia de Direita signifique o Bolsonarismo e a defesa intransigente de valores tradicionais e da família, bem como outros podem crer que a ideologia de Esquerda signifique apenas a paixão por um líder popular associado ao socialismo (Lulismo).

Em verdade, antes da Revolução Francesa (1789), não existia essa distinção nos termos “Direita” e “Esquerda”. O que vigia na França era o Antigo Regime, estruturado na divisão estamental entre o Rei, a Nobreza, o Clero e o chamado Terceiro Estado (a burguesia, os camponeses e os trabalhadores urbanos).

Em 1789, durante as sessões da Assembleia Nacional Constituinte, convocada para limitar os poderes absolutistas e elaborar uma nova Constituição para a França, os parlamentares começaram a se organizar fisicamente no espaço conforme suas afinidades políticas.

Do lado direito do presidente da Assembleia, sentaram-se os representantes do Clero e da Nobreza. Esse grupo, essencialmente conservador, defendia a manutenção da Monarquia e dos privilégios da aristocracia. Eles queriam preservar a ordem social tradicional, na qual o conceito de família era rígido (não permitia o divórcio, filhos havidos fora do casamento, mulheres não tinham direitos políticos), a Igreja exercia forte autoridade moral e política, e as hierarquias de classe permaneciam intocadas.

Do lado esquerdo, sentaram-se os representantes do Terceiro Estado, compostos principalmente pela burguesia (comerciantes, advogados, médicos e intelectuais) e reformadores radicais. Ao contrário do que se costuma imaginar, esse grupo inicial de esquerda não era formado por operários feudais, mas sim por lideranças burguesas. Eram eles que, naquele momento histórico, defendiam a liberdade de mercado, o fim da intervenção do rei absolutista na economia, a laicização do Estado e a igualdade civil perante a lei (tendo em vista os privilégios da aristocracia).

Foi essa disposição física durante as votações, os conservadores e defensores da tradição à direita, e os defensores da mudança, das liberdades individuais e da limitação da autoridade real à esquerda, que consagrou os termos que usamos até hoje para mapear o espectro político.

Com a Revolução Industrial e o fortalecimento do movimento operário, a “Esquerda” passou a incorporar fortemente a defesa dos trabalhadores e a intervenção do Estado na economia, enquanto a “Direita” incorporou o liberalismo econômico e o conservadorismo social.

Nesse período a “Direita” passou a ter duas vertentes, a burguesia emergente que defendia o liberalismo econômico e os conservadores, reacionários, ligados a antiga aristocracia agrária (os descendentes da nobreza) que defendiam o retorno do regime anterior com tradições e estruturas hierárquicas que geravam privilégios.

A “Esquerda” era representada pelos movimentos populares e a resistência operária que passaram a defender direitos dos trabalhadores (proletariado) que contavam, na época, com jornadas excessivas de 16 horas, trabalho infantil, mortes por abusos da indústria etc.

Por essa razão, então, é que atualmente nós dividimos a política entre Direita e Esquerda devido às pautas que cada lado luta e defende.

Mas, será que o discurso político atual dessas ideologias, representadas por figuras como Lula e Bolsonaro, no Brasil, estão em consonância com as pautas defendidas pela então Direita e Esquerda da Revolução Francesa?

Observando sob a ordem constitucional que rege as relações entre o povo e o Estado, o discurso político atual não é verdadeiro, se destinando unicamente a persuadir, maliciosamente, a população brasileira com o objetivo exclusivo de angariar votos para eleger uma ou outra figura.

O discurso da atual “Direita”, que disputa as eleições no Brasil, não condiz com os valores defendidos por sua ideologia política que sempre se destinou a lutar por direitos das classes economicamente superiores em detrimento da intervenção estatal, defendida pela ideologia de esquerda, que luta em direção de mais igualdades e garantias contra abusos.

De outro lado, o discurso da atual “Esquerda”, que disputa as eleições no Brasil, não apresenta um plano sério de redução das desigualdades através de equilíbrio financeiro que garanta acesso real da população e não dependa de programa assistencial tapa buraco, segurança pública desmilitarizada (não é desarmada) que conheça e saiba atuar nas regiões periféricas e comunidades carentes.

Enfim, enganados são aqueles que acreditam em discurso sensacionalista em detrimento de planos reais de mudança.

A sua “Direita” que grita: “feminicídio não existe e mulher não deve votar”, é a mesma que coloca uma candidata mulher para concorrer a um cargo público, não está preocupada com as mazelas do seu bairro e se você amanhã será vítima de violência contra a mulher pelo simples fato de ser mulher e o algoz acreditar que você tem menos valor que ele perante a sociedade.

Bem como, a sua “Esquerda” que grita: “o povo precisa voltar a comer picanha”, é a mesma que não trabalha para dar condições reais de você ter acesso e liberdade para escolher o que comer, não está preocupada se você fará sua comida com gás, lenha ou energia elétrica, pois disponibilizou um auxílio que não resolve o problema, apenas cria a impressão de solução.

Nesses termos é possível concluir que nossa sociedade está doente, assim como a vítima que pensa que o problema é ela, pois seu agressor apenas teve um momento de estresse, que as coisas vão mudar, se ela mudar. Mas a realidade é que tudo muda quando você dá um BASTA, tire o agressor de suas vidas, busque viver outras experiências.

O desconhecido assusta, mas é uma possibilidade não experimentada. Continuar com o conhecido é confortável, mas prejudicial, o conforto vem da falsa sensação de segurança que existe porque você já sabe o que vai acontecer, mas não porque não irá mais sofrer.

Carapicuíba, 06 de outubro de 2026.

Wendel Santana Nunes

Professor, advogado, palestrante e escritor.

Wendel Santana · OAB/SP 459.681

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